Certa vez durante uma caminhada no parque com uma amiga que eu gosto muito, eu disse para ela: “Ah amiga, a gente se entende porque entra no coração uma da outra sem sapatos”, que para mim significa respeito e reverência, assim como quando entramos num ambiente sagrado.
Assim é o coração das pessoas. Um templo sagrado.
Eu passei muito tempo da vida protegendo este templo, criando uma armadura em torno de mim. Porque eu tinha a crença inconsciente que se eu me abrisse, iriam entrar no meu templo com os dois pés, com chuteira e tudo.
E assim eu passei anos e anos criando proteções para não ser machucada.
O incrível foi que, depois de viver praticamente toda minha vida desta forma, eu não fui poupada de ser machucada, pelo contrário.
Fui traída diversas vezes. Usada. Constrangida. Humilhada. Desqualificada. Assim como a grande maioria das pessoas já passara por isso alguma vez na vida.
Apesar da proteção e de me armar até os dentes para me proteger, ainda assim, eu atraía estas situações.
Ao mesmo tempo que a raiva e a revolta me impulsionavam a ser cada vez mais determinada e disposta a provar o contrário para o mundo. Sim! eu tenho valor!
Vivi verdadeiras batalhas nesta jornada. E apesar de me considerar vencedora, de ter provado para mim mesma e para os outros que eu tinha valor, e que eu era capaz, tudo isso deixou um grande vácuo dentro de mim.
E eu me vi no meio de um campo de batalha, onde só eu estava de pé e todo resto destruído.

Assim, não haviam mais inimigos externos. E agora, contra quem eu vou lutar?
Totalmente identificada com esse “modus operandis”, eu não percebia que todas as dificuldades exteriores que eu atraía eram reflexo dos inúmeros conflitos internos que eu possuía.
Desta forma, eu só estava começando a maior e mais difícil de todas as batalhas da minha vida, contra o inimigo mais implacável que eu poderia enfrentar: Eu mesma!
Este inimigo é muito especial, pois nenhuma das estratégias que você adotou antes servem para vencê-lo.
Ele é mais astuto. Conhece todos os seus pontos fracos. Sabe de antemão o seu próximo passo. Ouve seus pensamentos, e tem a noção exata de como você se defende.
O filme “Dormindo com o inimigo” se expressa de forma perfeita neste caso.
Neste momento você deve estar se perguntando se eu venci ou sobre como fazemos para vencermos a nós mesmos, certo?
Qual é a estratégia?
Para cada pessoa que é convocada pela vida a trilhar esta jornada o caminho será diferente, porém, acredito que o autoconhecimento é fator imprescindível.
O ponto de vista que eu adoto, é o de olhar pra mim, me permitir sentir qualquer coisa que me atravesse sem restrição e julgamento. Desde os sentimentos mais lindos e nobres até os mais vergonhosos e deploráveis.
É escrever cadernos e cadernos meus pensamentos, meus desejos, para ter clareza máxima daquilo que é importante pra mim e que faz sentido para minha vida.
Me conecto diariamente com o divino. Faço sadhanas para disciplar minha mente. Permaneço completamente aberta a qualquer movimento que a vida apresente, sem me apegar a resultados, deixando entrar e sair o que tiver que acontecer.
Não permito que a procrastinação e a resistência me impeçam de alcançar meus objetivos. Olho para a resistência com amor para encontrar a dor que ela está tentando me proteger.
Me alinho diariamente ao que eu preciso fazer pra chegar onde quero chegar.
E no meio disso tudo aprendi a me amar e me respeitar.
A minha jornada é diária, mas o inimigo se tornou amigo. E hoje, nós não lutamos mais um contra o outro. Nós nos tornamos um só.
Nós caminhamos de mãos dadas.
Amar a si mesmo é a melhor forma de proteção que existe neste mundo, e eu já não sinto mais necessidade de levantar muros para me defender de ninguém.
Mesmo quando eu cruzo com situações ou pessoas que trazem consigo alguma carga, desconforto ou até mesmo ofensa, essa energia não entra no meu coração, não ressoa com algum sentimento não reconhecido dentro de mim.
É claro que a jornada de autoconhecimento é eterna. E eu sei que ainda virão outras e outras situações, porém, elas cumprem com seu papel, que é o de me despertar para a presença da dor que eu neguei, e que eu preciso reconhecer para que vá embora.
Viver de forma integrada é a melhor forma de proteger o templo sagrado do coração.




